sábado, 2 de dezembro de 2017

Um elogio muito bonito (e justo) à D. Emília...




(fotografia e texto de Alexandra Carvalho)




Conheço a D. Emília há uns bons 8 anos, desde que iniciámos, em Benfica, um Movimento de Cidadãos, que lutou pela preservação do património histórico onde ela habita há mais de 50 anos: a Vila Ana e a Vila Ventura...

Mulher generosa e destemida, com uma força e carácter impressionantes, e uma mentalidade muito à frente da sua época, que a fez educar o seu filho quase sozinha... E sozinha tem continuado a lutar por tudo o mais, no resto na sua vida.

Com a D. Emília vivi, também, muitas histórias com animais, quando juntas, nos finais de tarde dum Verão longínquo, iniciámos a captura dos inúmeros gatos das Vilas (para serem esterilizados)... ou quando ela me pediu ajuda para duas cadelas sarnentas que lhe apareceram um Natal no jardim (e foram recolhidas por um amigo veterinário)... ou quando duas amigas me pediram ajuda para a última ninhada duma gata que por ali aparecera (a última gata das Vilas, que faz, actualmente, companhia à sua última inquilina)...

Nos últimos anos, derivado do apoio familiar que tive que prestar aos meus Avós, fomos afastando-nos um pouco, mas mantendo sempre o contacto telefónico de quando em vez.
Quando me apercebi que uma das doenças da idade começava a atacar a D. Emília, doeu-me cada vez mais ver reflectido no seu olhar tudo aquilo que também vivi com o meu Avô... e, para me proteger dessa dor, comecei a tentar evitá-la.

Até ao dia de hoje...
Em que regressei à Vila Ventura, com uma notícia bonita para lhe dar e um exemplar do "Diário de Notícias" para lhe oferecer.

Sentadas na sua sala, com o sol matinal de Dezembro a aquecer-lhe o rosto, li-lhe de fio a pavio as duas páginas que o jornalista lhe dedicou (em que ela quase não queria acreditar, se não tivesse visto a sua fotografia)... E chorámos, comovidas, pelo lindíssimo e muito merecido elogio público que alguém assim dedicou a esta grande Senhora (esquecida por detrás da janela duma Vila histórica, também ela caída no esquecimento).

Muito, muitíssimo obrigada a quem deu esta prenda à D. Emília!


"A mulher que via partir os vizinhos"





Por Ferreira Fernandes,
in "Diário de Notícias" de 02/12/17





Duas vilas seculares, ao fim da Estrada de Benfica, aguardam não se sabe o quê. Se for demolição, o bairro e a cidade perdem uma história onde entram o bairro e a cidade. E Luiz Pacheco e Spínola e Maria Lamas e Lobo Antunes e, sobretudo, nós

Podíamos começar assim, exagerando pouco: "Estamos no ano de 2017 depois de Cristo. Toda a freguesia de Benfica já foi ocupada pelos patos-bravos... Toda? Não! Uma vila povoada por uma irredutível velhinha ainda resiste aos apagadores do passado." Seria um plágio descarado à abertura de todos álbuns do Astérix, mas a causa é boa. Defender uma histórica freguesia e homenagear uma simpática senhora. A dona Emília Cândida, filha de Eugénia Teolinda, talvez tenha, como Obélix, mergulhado na poção mágica que torna forte os simples. De comum, ainda, ela ter um gato, como o canito Ideiafix do gordo gaulês. De diferente, a elegância da dona Emília, de passo firme, casaquinho de bom corte mas coçado.

A aldeia gaulesa da dona Emília são duas vilas, geminadas, quase abandonadas e bonitas. A Villa Ana e a Villa Ventura, no fim da Estrada de Benfica, já a dois passos da saída da cidade, nas Portas de Benfica. Os nomes ainda se conhecem por lenda ou nos escritos notariais. Na fachada da segunda vivenda, só as letras "VI...V...T...A", as outras desistiram, caíram. As vilas são centenárias, foram mandadas construir pela herdeira de um casal que esteve emigrado no Recife, brasileiros de torna-viagem: a Villa Ana, em 1890, e a Villa Ventura, em 1910. Construídas quando aquele bairro de Benfica era quintas produtivas ou chalets de ricos.

Alinhadas em espelho, dois andares de cinco janelas por piso, ladeadas cada uma por um torreão de quatro águas e outro de duas. Toques de gosto de quem construiu para servir ou fazer inveja a quem passa: os torreões têm janelas redondas, em óculo, e as telhas das cumeeiras são rematas por friso de elementos decorativos. Benfica tem blogues a falar do seu bairro, Retalhos de Bem-Fica é um deles, que recolhem testemunhos de antigos moradores: "Do óculo do torreão, vimos o incêndio do Palácio de Queluz." Em 1934, via-se seis quilómetros adiante. Hoje, o horizonte acaba do outro lado da rua, nos prédios com varandas fechadas a alumínio. O conjunto das Villa Ana e Villa Ventura é formoso; a conservação, um desastre.

Esta semana, o condutor de um carro bloqueado por outro irritou-se com buzinadela insistente na Estrada de Benfica, em frente às duas vivendas, n.º 674. Ao chinfrim, a da esquina, a Villa Ana, permaneceu impassível. Ninguém a habita, está cercada por um tapume e um cartaz anuncia que a empresa proprietária, a Ormandy Portuguesa, vai fazer obras. Nos dois andares da Villa Ventura quase todas as janelas estão entaipadas, só as do 1.º direito têm cortinas. Foi lá que uma janela com cortinas se abriu de par em par. Uma cabeça branca espreitou. Emília Cândida, a última habitante das vilas que esperam não se sabe o quê. Talvez que Emília não mais abra a janela.

Emília Cândida diz que tem 84 anos, o seu BI diz 85 e ela não contesta: "Tiro sempre um ano." Na quarta-feira passada ela veio trazer comida ao gato, o último de uma chusma que vivia no jardim fronteiro, suspenso um metro sobre o passeio. O carteiro trouxe-lhe um envelope da Meo. Ela abriu-o e qualquer coisa a confundiu, talvez o valor, mais de 400 euros. O gato, aos pés, esperava que ela lhe desse de comer, mas a dona estava alheada. Ao menos, com os gatos é simples, não se lhes dá nome e chamamos-lhe gato. Emília decidiu ir saber da conta da Meo, afagou o seu gato sem lhe dar nome, e foi.

Na malinha de mão levava as contas arrumadas, os papéis da operadora, da eletricidade, da água e do aluguer, 30 euros e 88 cêntimos. Gás já não tem desde que um último vizinho estragou a ligação, agora é bilha. Na malinha levava a papelada da vida inteira, como anda sempre. A carta da proprietária que, nos anos 1990, vendeu à Ormandy o apartamento que alugava à Emília; a carta da Ormandy, em setembro de 2016, prevenindo-a de que lhe dava prazo para sair, por causa de obras; da Ormandy, no mês seguinte, amaciando a proposta: Emília só sairia da Villa Ventura quando as obras da Villa Ana permitissem que ela fosse para um apartamento desta, com garantia de voltar à vila inicial, "para um T0, talvez um T1".

Em todo o caso, na Villa Ana, de obras, só o tapume e sem janelas nem portas. Aparentemente não é muito aliciante a transformação das duas vilas, guardando-lhes a traça. Sem a única inquilina, o destino de ambas estaria traçado há duas décadas, ou talvez mais. Já teria havido demolição e mais um prédio, naquela esquina apetecida, entre a Estrada de Benfica e a rua de prédios novos, dos CTT e das Finanças.

A simples existência de Emília impediu até agora os destinos marcados. Nos anos 1950 e 1960, ela viu os vizinhos partirem, ficou e impediu, só por ficar, mais um prédio manhoso dessas décadas pobres. Em 1974 e 1975, ganhou vizinhos jovens e de vidas devassas, que ocupavam quartos e salas coletivas. Hélia Correia, que vivia no bairro, ruas mais acima, em 1985 escreveu a novela Villa Celeste, passado em "casas geminadas pintadas por igual de amarelão", sobre uma mulher que "ficou muito perturbada quando alguns [vizinhos] começaram a despedir-se dela". A capa tem uma mulher à janela com cortinas, espreitando. O livro foi editado por Luiz Pacheco.

Coincidência, o escritor Luiz Pacheco viveu na Villa Ana, casa dos seus avós no fim da década de 1940. No verão de 1950, o poeta António Maria Lisboa, seu amigo, ficou lá algumas noites, antes de partir para Paris, no sótão com lucarna. Nos anos de 1920, na mesma vila, viveu António de Spínola, então aluno do Colégio Militar, e que chegaria a marechal e primeiro Presidente na democracia.

Só essa convivência, embora não coincidente, entre o escritor libertino e o general de monóculo e pingalim mereceria indulto a impedir demolição. As duas vilas, só por existirem, permitem evocar o que não teve oportunidade de sobreviver. Olhem as duas, as gentis, bem desenhadas e ainda erguidas Villa Ana e Villa Ventura. E lembrem-se. À esquerda ficava o chalet, tipo bávaro, com traves de madeira a marcar a fachada, a casa do avô do escritor António Lobo Antunes. À direita, no prédio vizinho da Villa Ventura, viveu a escritora Maria Lamas (1893-1983), divorciada, cuidando das duas filhas.

A autora de As Mulheres do Meu País trabalhava no que fez sempre: ensinar a aprender sempre. E arredondava os fins de mês indo buscar ceroulas e camisetas à vizinha fábrica Malhas Simões para casear e pregar botões. Às vezes, voltava com operárias, para as ensinar a ler. Em 1962, Maria Lamas, com 68 anos, exilou-se para Paris. Em poucos parágrafos e sobre poucos metros foram citados cinco escritores portugueses - e tal porque se pôde ancorar a conversa (porque ainda existem!) em duas casas de uma freguesia que renasce. "Benfica Tem", dizem cartazes da Junta de Freguesia de Benfica. Tem passado, por exemplo - e é tão importante tê-lo.

Há mais de um século, das janelas, portas e lucarnas das Villa Ana e Villa Ventura, olhando em frente, do outro lado do caminho estreito e de terra que era a Estrada de Benfica, um tal Sport Lisboa e Benfica - esse, o primeiro com esse nome, fundido do Sport Lisboa e do Grupo Sport de Benfica, em 1908, o famoso Sport Lisboa e Benfica - teve o seu primeiro campo de futebol. Ali, no campo da Feiteira, linhas marcadas ao longo da estrada, de um lado, e da ribeira de Alcântara (o último afluente do Tejo, depois de este correr mil quilómetros), do outro, o Sport Lisboa e Benfica ganhou pela primeira vez ao Sporting (2-0) e jogou, pela primeira vez, com um clube estrangeiro (o Bordéus). Recorda-se isso porquê? Porque duas silhuetas de casas (ainda) o mostram.

As redes das balizas eram as usadas na faina pelos pescadores da Trafaria. Isso não se vê hoje. Mas podemos ver nas fotos antigas de mais de cem anos, os lances e os golos com, ao fundo, a Villa Ana, sozinha, ou acompanhada pela Villa Ventura, a partir de 1910 - a olhar, a assistir, a dar-nos passado. Tão importante andarmos na Estrada de Benfica, hoje, e vê-las a guardar o nosso passado. Estarão elas guardadas em 2030?


Na quarta-feira, Emília Cândida foi à Meo, em Picoas, e soube que em agosto tinha ido ao Colombo e assinou o fim do contrato, que só acabava para o ano. Com aquilo da fidelidade e tal tinha de pagar os tais tantos euros... Assinou? Provavelmente, sim, a assinatura está lá e não há que duvidar da empresa. Talvez a atenção da Emília Cândida esteja cansada pelo tanto que nos deu, só por morar numa casa. Aliás, dá. Terá sido em vão a candura generosa da sua vida?




quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

"Morreu o Arquitecto Nuno Teotónio Pereira"







(por Alexandra Carvalho)





In Jornal "Público" (20/01/16)



Em 2009, quando começámos esta luta, foi a ele que nos dirigimos, a pedir auxílio quanto à identificação da Vila Ana e da Vila Ventura.
Com idade já muito avançada a essa data, e quase em risco de cegar, foi a sua filha, Luísa Teotónio Pereira, quem nos acompanhou na criação deste Movimento de Cidadãos pela preservação da Vila Ana e da Vila Ventura (e tanto nos ensinou!).

Não deixa de ser "irónico"/curioso que, precisamente hoje, quando se realizou uma vistoria da Câmara Municipal de Lisboa às Vilas, o Arqº Nuno Teotónio Pereira tenha "partido"!...

Os nossos mais sinceros sentimentos a toda a sua família, em especial à sua filha Luísa.










quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Actualização sobre o caso do BOB





(por Alexandra Carvalho)



ACTUALIZAÇÃO: - O agente da PSP que baleou e matou o BOB foi hoje (14/01/16) pronunciado como arguido. 





Fotografia de João Ramos (2014)




Na noite de 03/10/14, por volta das 21h20, o BOB foi baleado por um agente da PSP, numa rusga efectuada às imediações de sua casa. Infelizmente, o BOB veio a falecer a 04/10/14 (Dia dos Animais), apesar de tudo o que os veterinários tentaram fazer para o ajudar.

No dia 05/10/14, foi formalizada uma queixa-crime contra o agente policial que baleou o BOB, pela pessoa em nome da qual o animal se encontrava devidamente registado, vacinado e chipado.

Em Outubro de 2015, passado um ano, o Ministério Público arquivou o processo. Tendo, no mês seguinte, sido solicitada a abertura de instrução pela assistente e a sua advogada.

No passado dia 05/01/16 realizou-se o debate instrutório, tendo hoje sido conhecida a decisão da Juíza de Instrução: o agente da PSP que matou o BOB foi pronunciado como arguido e o caso seguirá para julgamento.

Este é um caso que tem sido mencionado em várias conferências e palestras, e que esperamos venha a fazer jurisprudência como caso exemplo na área da defesa dos Direitos dos Animais de Companhia.

*** 

Posto este esclarecimento público (prometido à data de ocorrência dos factos), não posso deixar de agradecer a todas as pessoas que me têm acompanhado mais de perto e apoiado em todo este caso, em especial: 

- A todos/as os/as que, de uma forma solidária, me ajudaram (de várias formas), desde que o BOB foi morto; 

- À minha advogada (Dra. Rita Fernandes), que acreditou neste caso e me tem acompanhado de uma forma pro bono em todos os momentos, pela sua dedicação e empenho extraordinários; 

- À Sandra, confidente de todas as horas, pela enorme força-lucidez que me deu logo de início (mesmo sem nos conhecermos pessoalmente), assim como pelos seus sábios e ponderados conselhos; 

- A todos/as os/as que, sem medo, testemunharam neste processo; 

- A todos/as os/as que, em Benfica e na causa dos Direitos dos Animais, têm acompanhado este caso de alma e coração; 

- À Câmara Municipal de Lisboa e à Casa dos Animais de Lisboa (nas pessoas do Dr. Veríssimo Pires e da Dra. Marta Videira); 

- Ao Hospital Veterinário Berna (à data do trágico acontecimento, "Centro Veterinário Berna"); 

- À Dra. Inês Sousa Real, Provedora dos Animais de Lisboa. 


MUITO OBRIGADA!











quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Atelier Casa das Histórias Mágicas







Nasceu mais um espaço em Benfica, com inúmeras actividades e oficinas culturais...





Clicar na imagem para abrir a Programação de Janeiro




Mais informações, aqui.