sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Às Portas de Benfica




"(...) Retiros de fados berços de fadistas, gostei de mais esta contribuição do Sr. Castelhano.

Ele falou do Restaurante 'Bacalhau', no início da Av Elias Garcia na Venda Nova, a seguir aos Castelos das Portas de Benfica, e não resisti a enviar-lhe esta foto do Restaurante onde o meu pai parava e eu tantas vezes ali entrei ou lhe passei à porta.





"Restaurante Bacalhau, às Portas de Benfica" (1960)
Artur Goulart, in
Arquivo Municipal de Fotografia


A outra foto dos terrenos fronteiros à Rua das Fontaínhas frente ao Restaurante em questão.





"Carrocel nas Fontaínhas" (1961)
Artur Goulart, in
Arquivo Municipal de Fotografia

"Carrocel nas Fontaínhas" (1961)
Artur Goulart, in
Arquivo Municipal de Fotografia


Ali acampavam os circos sazonalmente, Circos Torralvo e Mariano, e os carroceis, os aviões, a delícia das crianças de Benfica que para ali iam para se divertirem, e delícia das crianças da Venda Nova, onde morei e que tantas saudades me deixa.


O seu blog está uma autêntica enciclopédia sobre Benfica, de facto cada vez melhor, parabéns mais uma vez.


Um abraço e se houver o jantar do 1º aniversário do blog, como não vou estar peço-lhe que sem ninguém ver beba por mim um trago de champanhe.



Um abraço,

JResende"





"Minha aldeia é todo o mundo
Todo o mundo me pertence

Aqui me encontro e confundo

Com gente de todo o mundo

Que a todo o mundo pertence."


António Gedeão





(por Alexandra Carvalho)





Fotografia de José Boavida Caria


O relato fotográfico idílico dos terrenos junto às Portas de Benfica, na freguesia da Venda Nova, que o Jorge Resende aqui nos deixou hoje, teve o condão de me relembrar o forte contraste existente com o (já desaparecido) Bairro das Fontaínhas.

O Bairro das Fontaínhas, outrora localizado por detrás das Portas de Benfica, foi dos primeiros bairros ilegais a ser construído e habitado ali mesmo às portas de Lisboa, após o processo de descolonização.

Segundo alguns estudos, este era um local onde os moradores menos sentiam a imagem negativa do bairro (apesar da exclusão social e dos índices de criminalidade a ele associados) e onde existia a maior percentagem de crianças e jovens (comparativamente com outros bairros de génese ilegal, como o "6 de Maio" e o "Estrela D'África").

No Bairro das Fontaínhas habitavam maioritariamente indivíduos de origem cabo-verdiana e os seus descendentes (muitos dos quais, apesar de terem nascido em Portugal e não conhecerem sequer o país de origem dos seus pais e/ou avós, não eram portugueses devido ao princípio do jus sanguinis).
Indivíduos esses que faziam, também, a sua vida em Benfica, frequentando o Mercado e algumas das lojas do comércio tradicional desta freguesia.

Foi no intrincado das labirínticas ruelas estreitas do Bairro das Fontaínhas, em 2000, que comi a minha primeira cachupa (outras, mais tarde, noutros locais, se seguiriam), em casa da Dª. B. e da sua família.

Trabalhava, nessa altura, num dos dois castelinhos das Portas de Benfica. E, durante mais de um ano, pude conhecer melhor a realidade vivida por aquelas famílias, ao atender inúmeros imigrantes do Bairro das Fontaínhas e de outros bairros limítrofes a Benfica e a Lisboa.

Nunca me hei de esquecer do ambiente sereno que se vivia naqueles finais de tarde de Verão, nas traseiras do Castelinho das Portas de Benfica, quando as mulheres se sentavam na soleira das portas de suas casas confraternizando e as crianças brincavam naquele espaço amplo que ficava ali mesmo entre Nós e os Outros, na confluência de duas freguesias.

Foi no Bairro das Fontaínhas, com a ajuda de uma colega de trabalho, que salvei um dos primeiros gatos que comigo se cruzou, quando algumas crianças do Bairro, aflitas, nos vieram bater à porta a pedir socorro para um felino bebé que se encontrava em cima de um telhado.

Mais tarde, já afastada daquele trabalho, não assisti (felizmente) à fatídica morte do cão-de-guarda do Bairro (um rafeirito abandonado), quando um polícia em licença contra ele disparou (induzido pela ressaca dos estupefacientes que ia adquirir ao Bairro das Fontaínhas).




Fotografia de José Boavida Caria



O Bairro das Fontaínhas foi demolido em 2005, para que a CRIL avançasse velozmente. E os seus habitantes foram realojados por diversos bairros sociais criados no concelho da Amadora.






11 comentários:

João disse...

Jorge Resende, através das fotos não consigo ter uma orientação perfeita quanto ao posicionamneto d'O Bacalhau. Será que ficava mais ou menos em frente da antiga garagem do Eduardo Jorge ?

Alexa, independentemente dos princípios de jus sanguinis ou jus solis, as Fontainhas são o exemplo acabado de como as pessoas não devem viver, seja qual for a sua nacionalidade. Mas muito antes da existência das barracas das Fontaínhas, aquela zona à entrada da Venda Nova já era uma área "urbana" algo degradada. Por isso, houve gente que ali morreu aquando das grandes cheias de 1967... :(

Alexa disse...

João: concordo na íntegra com a sua opinião!
Nem o Bairro das Fontaínhas e outros são exemplos para se viver, nem tão pouco os guetos de realojamento que têm sido construídos por todo o país!

Sobre as Cheias de 1967...
É um assunto sobre o qual tenho um grande interesse, sobretudo, desde que soube que o Regime "apagou" o facto de ter havido tantas mortes:

http://retalhosdebemfica.blogspot.com/2009/07/as-cheias-de-1967.html

Um abraço

Anónimo disse...

Embora não seja do meu tempo, esse resturante devia ficar do lado direito de quem vai de Benfica para a Amadora, logo na entrada da Venda Nova. Aliás, ainda hoje por lá existe um restaurante com esse nome.
Luís

Fausto disse...

Olá

Exactamente!
Era aí mesmo, no recanto. Cheguei a lá ir com o meu pai e irmãos. Mas o restaurante que lá está não tem nada a ver com o original retiro onde cantava o fado.

Fausto

Fausto disse...

Olá
Os meus agradecimentos ao Sr. Jorge Resende pela foto do Restaurante Bacalhau tal como era nesse tempo. O meu pai levou-nos algumas vezes, aí mesmo. Tal e qual!

Um abraço
Fausto Castelhano

Margarida Soares disse...

Antes de ser um bairro de barracas é importante não esquecer que a Venda Nova era uma zona industrial, logo, na rua das fontainhas, as casinhas brancas que ainda lá estão (por pouco tempo) eram casas dos operarios das fabricas.

Alexa disse...

Cara Margarida Soares,

Antes de mais, seja muito bem vinda a este nosso blog... e muito obrigada pelo seu contributo (é com o contributo e participação de todos que pretendemos transformar este espaço num blog comunitário, que fale sobre a nossa freguesia no Passado e Presente, com pistas para o Futuro)!

Conforme poderá ter percebido (pelo menos, eu tentei explicá-lo neste post), as fotos que o Jorge Resende nos enviou sobre a Rua das Fontaínhas e Restaurante "Bacalhau", fizeram-me relembrar o Bairro das Fontaínhas (e não a Venda Nova no seu todo), local onde trabalhei muito próximo e do qual pretendi aqui deixar um testemunho.

Espero, no entanto, que esse testemunho não tenha sido entendido como denegrindo a zona da Venda Nova, pois não era a ela que eu me referia, mas sim a um aspecto muito específico.

No entanto, Margarida, sinta-se à vontade para nos remeter mais fotos e/ou testemunhos sobre o Bairro de Operários que mencionou neste seu comentário.

Muito obrigada!

Abraço

Anónimo disse...

e muito estranho pois kd eramos criancas queriamos que as barracas saissem daquele lugar com o tempo fomos crescendo e as amizades vao mudadando ate que comecamos a gostar de la estar com os amigos la habitavam, porque la dentro por mais degradante que pudesse ser ou parecer, havia uma coisa que nao existe hoje vida amor todo o tipo de situacoes. hoje em dia olho e choro poque parece que parte de mim foi arrancado

Anónimo disse...

todas estas fotografias do restaurante bacalhau rua das fontainhas,portas de benfica e toda a sua envolvente me deixam muitas saudades pois eu nasci na venda nova há 77 anosme lembro de todas as transformações aqui realizadas e no tempo que cumpri o serviço militar na pontinha em 1955 todas as viaturas que circulassem na estrada militar eram multados na altura co cinquenta centavos.

Catia Paulino disse...

Eu morei lá muitos anos... Era tão feliz... Conhecia todos os vizinhos... Todos se ajudavam... Tenho muitas saudades desse tempo!!!!

Catia Paulino disse...

Eu morei lá muitos anos... Era tão feliz... Conhecia todos os vizinhos... Todos se ajudavam... Tenho muitas saudades desse tempo!!!!