segunda-feira, 25 de março de 2013

A Quinta de Montalegre e o “Bonifácio” (2)




Capítulo II - As origens da Quinta de Montalegre
(Quinta de Carlos Anjos ou Quinta de Dona Leonor)





Ler aqui o Capítulo I



(por Fausto Castelhano)



Quinta de Montalegre ou Quinta de Dona Leonor? Afinal de contas, onde se situava tão sonante herdade nas Freguesias de Benfica e Carnide e que, verdade seja dita, a maioria da população jamais se apercebeu da sua real existência? Quais os seus contornos e área territorial?


A área territorial da Quinta de Montalegre (amarelo tracejado); Azinhaga da Fonte (laranja); Estrada da Luz (vermelho); Estrada de Telheiras (verde); Largo da Luz (azul); Rua da Fonte (rosa); Rua dos Soeiros (roxo). (Extracto da Carta Militar de 1937 dos Serviços Cartográficos do Exército).   




Face à notória carência de elementos colocados à nossa disposição, recorremos à indispensável ajuda da rigorosa Cartografia Militar da década de 30 do século XX e, também, ao preciosíssimo Livro de Memórias da Pontinha, obra do padre José Baptista Pereira e que em afortunada hora decidimos desentulhar da parca biblioteca. 



Um pequeno trecho da antiga Azinhaga da Fonte e que ainda subsiste em pleno século XXI.
(Foto de Fausto Castelhano, 2012) 




Fotografias inéditas e que felizmente continuam resguardadas em boas mãos, revelaram-se de suma importância nas investigações levadas a efeito. Por último, além de indómita pachorra e depois de exploradas outras fontes onde os resultados finais se saldaram por magros proventos, resolvemos escarafunchar pelos interstícios mais fundos da memória na expectativa de que algo de substancial viesse a lume e nos levasse a recordar a nossa vivência por sítios e lugares, gentes e factos verdadeiramente fabulosos e que tanta saudade nos deixaram…



Quinta de Santo António, Azinhaga da Fonte, 26. Sobre a entrada, o magnífico painel de azulejos datado de 1742.  - (Foto de Fausto Castelhano, 2012)




Ora, a tão olvidada Quinta de Montalegre, também denominada em épocas distintas por Quinta de Dona Leonor ou Quinta de Carlos Anjos, justamente considerada uma das maiores e mais valiosas herdades incluídas nas chamadas freguesias do Termo da Cidade de Lisboa, encontrava-se circunscrita por um extenso perímetro o qual, partindo dum ponto fixado na Azinhaga da Fonte e distando cerca de 0,850 Km do Largo da Luz, passava pelo seguinte itinerário: troço da Azinhaga da Fonte até à extrema da Quinta de Santo António (±450 metros) e daqui, seguia pelas traseiras, tanto desta propriedade, como da pequena Quinta das Belgas e do complexo do Colégio Militar até chegar à Estrada da Luz (±400 metros).




A Feira da Luz remonta ao século XVI e realiza-se no Largo da Luz durante todo o mês de Setembro. Tem associada uma forte componente religiosa que culmina na procissão em honra de Nossa Senhora da Luz no último domingo de Setembro.
(Foto de Paulo Guedes - Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)



Prosseguia por esta via (cerca de ±500 metros) ao encontro da velhinha Rua dos Soeiros. Acompanhava esta artéria até ao topo da rampa e um pouco para lá da primeira curva à esquerda, isto é, onde actualmente tem início a Rua João de Freitas Branco (±600 metros), troço que pertencia à Rua dos Soeiros. O circuito fechava-se ao longo do muro divisório da Quinta do José Antunes ou Casal do Cordeiro até ao local de partida na Azinhaga da Fonte (cerca de ±750 metros).


Adjacente à Quinta de Montalegre encontrava-se o complexo do Colégio Militar. Na foto, o edifício principal do Colégio Militar no Largo da Luz, Carnide e onde funcionou, até 1814, o Hospital de Nossa Senhora dos Prazeres.
(Foto dos Estúdios Mário Novais)





Pela sua localização geográfica específica, a Quinta de Montalegre englobava uma vasta superfície integrada nas freguesias vizinhas de Benfica e Carnide. A linha que delimitava a fronteira entre as duas autarquias locais prolongava-se desde a Azinhaga da Fonte e a Rua dos Soeiros.


1942 - O portão de acesso à Quinta de Montalegre situado na Azinhaga da Fonte, 22
(Foto de Fausto Castelhano)




O Roteiro da Cidade de Lisboa de 1965/66 precisava: os números de 1 a 15/ 2 a 22 faziam parte do território da Freguesia de Benfica; os números 17 e 24 até ao termo da Azinhaga da Fonte localizado no Largo da Luz, encontravam-se incluídos na Freguesia de Carnide. Totalmente protegida por muros elevados, a Quinta de Montalegre dispunha de três acessos principais mediante largos e robustos portões metálicos: Estrada da Luz, 203 e 209, Azinhaga da Fonte, 22 e, ainda, Rua dos Soeiros, 193.





O portão de acesso à Quinta de Montalegre localizado na Rua dos Soeiros, 193. Na foto, Carlos Alberto e o irmão Fausto Augusto no automóvel a pedais em 1942.
(Foto de Fausto Castelhano)



À excepção do edifício senhorial erguido sobre a Estrada da Luz e da modesta habitação junto ao portão de serventia da Azinhaga da Fonte onde residiu António Castelhano após o seu casamento em 28/12/1941, o restante conjunto habitacional (moradia do caseiro e aposentos dos trabalhadores rurais/”casa da malta”), adega e lagar, palheiros, vacaria, cavalariça e outros estábulos), concentravam-se paredes-meias com o portão de entrada da Rua dos Soeiros.



O conjunto habitacional e outros aposentos em 1943 estavam localizados junto ao portão de entrada da Rua dos Soeiros, 193. 
(Foto de Fausto Castelhano) 



Propriedade muito antiga, a Quinta de Montalegre (Quinta de Carlos Anjos ou Quinta de D. Leonor) já era mencionada no século XVIII, tal como se poderá constatar n’algumas páginas do livro “Memórias da Pontinha” (Selecção, Organização e Prefácio de Jorge Martins). Segundo se deduz no respectivo prefácio, trata-se de uma recolha minuciosa de vários artigos sob o título “Memórias de Carnide”, escritos em 1895 pela pena cuidadosa do prior de Carnide, padre José Baptista Pereira, publicados entre os anos de 1914 e 1916 na revista conimbricense “O INSTITUTO”.






A capa do precioso livro “Memórias da Pontinha” de José Baptista Pereira, Selecção, Organização e Prefácio de Jorge Martins - Edição da Junta de Freguesia da Pontinha. 

(Foto Wikipédia) 



Vamos, então, deitar uma olhadela às Memórias do Prior de Carnide, o padre José Baptista Pereira. Assim, ao folhear a pág. 106 e com o título “ALMEIDAS CASTELOS-BRANCOS”, deparamos com a seguinte anotação: “Na Estrada da Luz vivia em 1738 o brigadeiro Manoel d’Almeida Castello-Branco, e é d’este anno a primeira notícia que nos livros do cartorio parochial apparece, sobre esta vergontea da familia Almeida Castelo -Branco”. E um pouco à frente e na mesma pág. 106, aparece mencionado o “predio dos barões da Ilha Grande (Mesquitellas)”. Assim: “Ficava a quinta e casa de habitação na Estrada da Luz, e era evidentemente a mesma que em 1719 pertencia aos Paes, que ainda em 1737 era habitada por José Paes de Vasconcellos, que a vendeu áquelle senhor. Até meados d’este século (XIX) existia esta em terrenos contiguos ao predio dos barões da Ilha Grande (Mesquitellas) e, em 1851, foi demolida para com seus materiais edificarem os Sobraes, descendentes da família, o palácio da Travessa das Bruxas, pertencente hoje ao sr. Carlos Anjos por uma série de desgraçadas eventualidades”.




Palácio dos Albuquerques (Mesquitellas) ou Palácio dos Condes de Mesquitela, 1930. Estrada da Luz, 221. A fachada principal do belo edifício está inserida no complexo do Colégio Militar.
(Foto Wikipédia)



Trata-se, sem margem de dúvidas do belo Palácio dos Albuquerques (Mesquitellas) ou Palácio dos Condes de Mesquitela, erguido na Estrada da Luz, 221. Continuando, ainda na pág. 106, surge a notícia do sr. Carlos Anjos como proprietário da herdade, a qual baptizará com o seu próprio nome… São referidos, também, não só o jardim e as cascatas da Azinhaga da Fonte mas, também, os lagares de azeite. Vejamos:




A célebre Cascata Monumental da Quinta de Montalegre e já mencionada em 1770 no livro Memórias de Carnide escrito pelo prior de Carnide, padre José Baptista Pereira. Na foto, grupo de amigos de António Castelhano (o último, à direita) em 1943. 
(Foto de Fausto Castelhano) 



“É certo isto, que a tradição me revelou, pois que quanto de bom e vetusto aquella propriedade tem - como as cascatas e jardim da Azinhaga da Fonte, lagares apparatosos da Estrada da Luz, tudo ficava ligado á antiga caza, que gosava d’excellente situação sobre a Estrada da Luz. Abandonando essa optima e desfrontada posição, foi depois sumir-se n’uma viella estreita e mal-afamada, como seu nome indica (Travessa das Bruxas”. (in pág. 106 e 107). E na pág. 108, a referência ao cruzamento das ilustríssimas famílias Castello-Branco e Braamcamp através convenientes matrimónios: “ALMEIDAS CASTELLO-BRANCOS (BRAAMCAMPS): Em 8 de janeiro de 1752 augmentava a esta já illustre familia o brilho e lustre de sua linhagem, a aliança que fez com o residente d’El-Rei da Prússia. N’aquelle dia, no oratório da caza da quinta da Estrada da Luz, ligava-se, pelos laços matrimoniaes, a Morgada D.Maria Ignacia d’Ameida Castello-Branco, natural da freguesia de Candelaria, do Rio de Janeiro, e baptisada na capella do ex.mo Bispo d’essa diocese, filha do Brigadeiro Manoel d’Almeida Castello-Branco e de D. Helena da Cruz Pinto e Faria, com Hermano José Braamcamp, residente de d’El-Rei da Prussia, cavaleiro professo da Ordem de Christo, viuvo de D.Theresa Theodora Mascarenhas e Athaide, falecida na freguezia de S.Paulo, e natural da de Santa Catharina, de Lisboa”. Após este faustoso enlace, a propriedade começou a ser conhecida por Quinta do Braamcamp ou, mais vulgarmente, pela Quinta do Residente da Prússia”.



O Marquês de Pombal e seu filho Conde Oeiras, Presidente do Senado de Lisboa, compareceram em Carnide como convidados no casamento do Dr. Wenceslau Braamcamp d’Almeida Castello-Branco e D. Maria Magdalena Antónia Cró da Cruz. 
(Foto Wikipédia) 




E um pouco adiante, na pág. 111, a aparição de nova aliança entre famílias de altíssimo gabarito e a novidade da presença “do grande Marquez de Pombal e seu filho Conde de Oeiras, presidente do Senado de Lisboa”. Vejamos: “…E, sem nos determos mais n’estas minucias, passemos a ver como a familia Almeida Castello-Branco Braamcamp veio a enlaçar-se com a dos opulentos Cruzes, ou afidalgados Sobraes. ALMEIDAS CASTELLO-BRANCO; BRAAMCAMPS SOBRAES: Em 20 de fevereiro de 1773 unia-se a família Almeida Castello-Branco à dos Cruzes, da Fabrica da Seda, por aliança matrimonial”.




Brasão do 1º Conde do Sobral, Gerardo Wenceslau Braamcamp d’Almeida Castello-Branco. 
(Foto Wikipédia) 


"Foi nesse dia que o Dr. Gerardo Wenceslau Braamcamp d’Almeida Castello-Branco, contando apenas 19 annos de idade, cazava, no oratorio das cazas em que vivia, no largo do Malvar, o conego António José da Cruz, com D.Joanna Maria da Cruz, de Lisboa, filha de Anselmo José da Cruz e de D. Maria Magdalena Antónia Cró da Cruz. N’este casamento, feito decerto com muito luzimento e brilho, não faltaram a honrar os seus queridos amigos Cruzes, o grande Marquez de Pombal e seu filho Conde de Oeiras, presidente do Senado de Lisboa”.
“…Em sua caza da Estrada da Luz finava-se, em 25 de junho de 1775, Hermano José Braamcamp. Por 23 annos tinha elle vivido alli com sua segunda consorte, D. Maria Ignacia d’Almeida Castello-Branco, de quem, como vimos, houve seis filhos, quatro dos quais lhe sobreviveram”.
E logo a seguir, na pág. 117, além d’outras referências, aparece-nos a alusão, mais uma vez, ao Sr. Anjos (Carlos Anjos), um dos proprietários da Quinta de Montalegre ou Quinta de Carlos Anjos: “…Em 1782, vivia na caza de Dona Maria Ignacia, da Estrada da luz, o padre Domingos António, que seria o capellão da caza”.
“…Em maio de 1792 era padrinho de um baptismo um tal Thomaz Pereira Godinho, cazeiro da quinta de Gerardo Braamcamp, e que em vida lhe fôra doada por seu sogro, Anselmo José da Cruz. Já em 1793 se falla nesta quinta, quando n’aquelle anno se effectuou o baptismo de um Anselmo, filho de Francisco Alves e de Anna Josepha da Rocha Oldemberg, que se diz, no respectivo assento, morarem à quinta de Anselmo José da Cruz, na Estrada da Luz, freguesia de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, e em cujo Oratorio elles tinham cazado”
.
“...Conjecturo que seria esta quinta, pouco mais ou menos, a que hoje pertence ao sr. Anjos, e onde em 1885, o conde de Sobral edificou a caza apalaçada que ainda subsiste”.
E na pág. 122 a notícia da compra da grande herdade pelo sr. Carlos Anjos: “…Sua irmã mais nova (de D. Maria Eugénia Braamcamp de Mello Breyner) casou com o visconde, hoje conde de Mossamedes, camarista de El-Rei. Este senhor que herdou largo pecúlio, em que entrava a caza dos Sobraes, á Luz, que foi vendida em hasta publica arrematada pelo sr. Carlos Anjos, nada hoje possui aqui, extinguindo-se por isso de toda a memória d’desta familia em Carnide e Bemfica”.







1895 - Fachada do Asilo "D. Pedro V", localizado na Freguesia do Campo Grande, em Lisboa, fundado em 1857. Entre os anos de 1897 e 1898, devido a obras nas suas instalações, o Asilo D. Pedro V esteve instalado no edifício do Sr. Carlos Anjos, em Carnide. 
(Foto Wikipédia) 


Finalizamos na pág.123 onde é mencionada, novamente, a Azinhaga da Fonte e a célebre Cascata Monumental: “…A caza da Luz, que pertence hoje ao sr. Carlos Anjos, serviu durante 1892 e parte de 1893 para o noviciado das irmãs missionárias (S. José de Cluny) que está actualmente installada no extincto convento de Santa Thereza. Esteve aqui, provisoriamente, o asylo de D.Pedro V, do Campo Grande, em 1897/1898, por estar em obras sua caza”.
“Conjecturo ser a mesma em que fallei ao tractar da Azinhaga da Fonte. Em 1753 morava ali o seu dono Thomé Vasco Barreto da Gama, e em 1770, o Dr. Francisco Xavier de Macedo. Parece-me ter sido incorporada na vasta quinta do Braamcamp, onde existe hoje a cascata monumental”.





António Castelhano em 1942 (o último, à direita) em animada confraternização com amigos no bosque da Cascata Monumental da Quinta de Montalegre 
(Foto de Fausto Castelhano) 



Infelizmente, os registos históricos contidos no livro “Memórias do Padre José Baptista Pereira” em torno de prestigiadas propriedades que dominavam as freguesias de Benfica e Carnide, mormente em relação à Quinta de Montalegre, não tiveram qualquer continuidade. Apenas algumas estampas serão publicadas no início do século XX onde avulta a imagem invulgar da apanha tradicional da azeitona. Na realidade, a estupenda herdade sobressaía, não só pelo soberbo olival de cerca de 2.000 pés oliveiras mas, também, pela excelência de terras de cultivo (sequeiro e regadio) e a abundância de reservas de água no subsolo (poços e a inesgotável “mina d’água”).




A tradicional apanha da azeitona na Quinta de Montalegre em 1905. O soberbo olival com cerca de 2000 pés de oliveiras e que produzia azeite de altíssima qualidade 
(Foto do Arquivo de Fausto Castelhano) 



Aos primeiros decénios do século XX corresponde um acentuado declínio da Quinta de Montalegre originado pela instabilidade social e política do país: o Regicídio em 1908, a implantação da República Portuguesa em 1910, a participação militar na 1ª Guerra Mundial, as sucessivas trocas de governos, os assassinatos e perseguições que irão culminar com a Revolução de 28 de Maio de 1926 e a Ditadura Militar que se seguiu até 1933. É neste contexto algo agitado em meados da década de 20 que Augusto Rodrigues Castelhano, após céleres negociações, toma a ousada iniciativa de arrendar para fins essencialmente agrícolas, a totalidade da apetecível Quinta de Montalegre.
[Continua…] 




*** O autor não respeita as normas do Novo Acordo Ortográfico






2 comentários:

Henrique Oliveira disse...

Mais que interessante trabalho, como eu sempre quis encontrar sobre as várias zonas de Benfica. A aguardar sempre os seus futuros trabalhos fico eu. (para quando um sobre o Calhariz?)

Anónimo disse...

Muito obrigado, sr. Henrique Oliveira pelo seu comentário a mais um capítulo de "A Quinta de Montalegre e o Bonifácio". Quanto ao Calhariz, um núcleo populacional muito antigo, é de facto um bom tema a explorar e existem fotos muito interessantes sobre o local. Pode ser que aconteça.